11 de set. de 2012

Exorcismo


Há cerca de dois anos entrei no maior turbilhão
 de minha vida: cinza, feio, frio. No primeiro
momento percebia apenas o tamanho do estrago
 na minha célula, veias, batimentos, transpiração,
 no corpo e na alma. Me recolhi, me fechei com
ostra, me coloquei no colo. Precisei dessa pausa.
 Desse mergulho profundo. Falhei com os
meninos naquele momento, não percebi que o
estrago era profundo, também ali.
Leitura feita, recolhi as crias, recebi mais que dei, descobri nos meus meninos, homens fortes e parceiros. Duas formas distintas, ambas lícitas. Não pedi divisão, não houve divisão. Jamais profanaria esse templo construído com tanto amor.

Impacto passado, hora de recolher os cacos. Fiz
realmente da minha fragilidade fortaleza. Conheci
um sentimento novo chamado “indignação”. E
descobri na pele, que não se tem como
transmutar. E dói.
Silenciei na minha dor. Não dei aos leões, nem o palco, nem o circo. E a escolha desse caminho foi trunfo. Não fui discurso, consegui exercitar, vivenciar, as minhas teorias mais profundas. Me orgulhei nesse momento. Conduzir - com a dignidade da vida construída - na hora da desconstrução, me fortaleceu.

Procurei ajuda, procurei novos caminhos, deitei
no colo dos meus.
Hoje me pego diante do momento mais difícil de todo esse processo e, agora, aqui, enquanto escrevo, toda dor que passei parece menor: a raiva, a traição traiçoeira, a presença de um terceiro elemento na minha vida.

Hoje cedo, na aula de yoga, ele me veio forte.
Lembrei que hoje é seu aniversário. Desejei o
melhor, silenciosamente enquanto respirava, e fui
jogada no que sabia que um dia chegaria: o
lamento da perda, da saudade, da ausência. Dói?
PRA CARALHO. Mas sei que cheguei na última etapa desse processo pessoal de me reconstruir. Registrar. Sentir. Seguir.

Há alguns anos, em outro 11 de setembro, aquele
parou o mundo escrevi:
Enquanto o olhar do mundo se dirigia para aquelas duas torres em chama, eu só conseguia ver outra torre, não tão alta, 1.90m, mas como um fogo que me acende até hoje. Enquanto o mundo parava diante da tragédia, eu em festa.
Afinal que sabor tem o 11 de setembro? Tem gosto de amanhecer melado, de café na cama, de beijo na boca, de amor rasgado. Tem o sorriso largo que desaba, que deságua, que comemora a vida, que festeja mais um ano, sem pressa que o tempo passe.
Ah, onze de setembro, que você me perdoe a falta de lágrimas, a dor o u a indignação. Que você não espere uma cara de espanto ou o medo de outro ataque.
No meu calendário a ação terrorista programada para hoje é outra, bem mais doce, suave, mas com um calor que abasteça as nossas vidas.

Hoje o vazio da torre, o
monumento erguido
no lugar, onde a água
jorra, corre... limpa,
também está em mim.
E aqui, me lavo, me
exorcizo e não
nego o mergulho.
Sento diante de mim mesma e
digo, fica um pouco no colo, reabasteça, a
libertação REALMENTE começou.


1 de set. de 2012

Tempo...tempo...tempo

Trajetos, caminhos, jornadas...
O que nos leva a linha do tempo.
O que nos faz pensar em anos, décadas.
E que muda quase “cronologicamente” quando a linha que rege é da intimidade.
E lá estávamos, quase em sala de aula, mas com mais doçura, mais contentamento, por perceber no outro que a vida foi gentil, que a experiência adquirida, nos fez melhor.
E essa percepção vem do reconhecimento da essência do outro.
Por mais que mudanças ocorreram, continuamos os mesmos.
Santa intimidade.
Doce intimidade.
E é esse detalhe - que faz toda diferença - quando se reúne passado e presente e se fica com o melhor: o encontro de agora.