27 de jun. de 2019

Minhas estações







Dizem por aí que envelhecer é privilégio negado a muitos. Uma verdade para alguns e um desconforto para outros tantos. Rita Lee publicou recentemente que “envelhecer é uma loucura, não é pra maricas.”  [fico com as belas canções]

Mas voltando...eu me coloco no primeiro pelotão. 
Olhar minha linha do tempo me traz conforto, por mais que tenha vivenciado rupturas, perdas e profundas transformações na minha forma de viver. Em um primeiro momento isso me foi imposto pelas circunstâncias do momento, me virou do avesso, e virou..., e vi tantos avessos que acabei sem saber qual era o lado certo.


Mas por mais que fosse confuso e até assustador tinha uma certa coerência interna e nesse vislumbre, tão opaco naquele instante - outro universo foi se revelando, quase um outro mundo paralelo. Estranho sentir assim, mas também revelador. Passei a exercer, por direito, essa casa inteira. 

A sensação que trago impressa é que tudo desembocou em um rio mais navegável e sem tantos redemoinhos. As urgências de hoje são muito mais de ordem prática do que da aflição da alma.  E nesse contratempo ainda acelero o passo para dar conta da lida profissional: exigente, louca, mas também apaixonante... [novos caminhos que estão por vir].

E na tentativa de ser observadora da minha própria existência, olhando de fora, de um outro ângulo, percebo severas mudanças, belas – diga-se de passagem... pelo menos em alguns cômodos, - vai!  Outros ainda precisam de mais luz, mas revelam-se pequenas frestas, que anunciam o que tem atrás da porta.

Trabalho duro abrir espaço na escuridão. Tatear aqui e ali, na busca desse pequeno feixe, desse minúsculo raio de sol num dia cinza de inverno.  Sem certezas nesse caminhar, mas com profunda fé e determinação. E já sabido, pelo meu coração pensante - que tudo o que vier será dado por uma direção mundial plena de sabedoria.


E nessa metamorfose ambulante que sou - me acolho diante do espelho - com ternura e carinho. [não é sempre assim, que fique também registrado]. E abandono velhos hábitos e me renovo no antigo, no que veio de outrora e tantos outros tempos. Quanto ainda a aprender. Quanto ainda a me encantar com suas sutilezas discretas.


E nessa ampulheta - observo as minhas estações. Sigo em meu outono e o inverno me espreita e me aguarda sem ansiedade ou sofreguidão. Assim, dei adeus ao artificial, a dependência do que não é mais; e no jeito meu de ser, me reinvento aos 59 anos, mantendo ao meu lado a menina pulsante, sorriso largo e tão marciana que é - que sou - somos.

Gratidão ao vivido.


Gratidão ao que está por vir.

E que essa menina energética seja companheira em períodos tão sombrios e de muita luta.